
Directora
A táctica das avestruz
26-09-2008,
Inês
Serra
Lopes
O presidente
do Fundo Monetário Internacional (FMI) saudou esta
semana as “medidas audazes” do plano Paulson
para segurar o
sistema financeiro
dos Estados Unidos da América
e aconselhou as “outras economias avançadas”,
ou seja, entre
outras, a europeia,
a preparar planos de contingência.
Ou seja, que se
preparem para o
pior. No seu artigo “Uma
crise sistémica exige soluções sistémicas”,
Dominique Strauss-Kahn
considera que a
sobrevivência
do fragilizado
sistema bancário depende sobretudo
de liquidez. Liquidez
que virá de injecções
através de aumentos de capital e da venda dos activos
problemáticos. A receita não é o ovo
de Colombo. Mas é cara. Muito cara.
E levanta uma questão interessante: o problema da “socialização
dos prejuízos”. Fazer o ministério das
Finanças suportar os prejuízos dos mercados financeiros
será razoável? Não pode ser de ânimo
leve que se utiliza o dinheiro dos impostos para pagar ou avalizar
dívidas decorrentes de actividades económicas
tipicamente de risco. Actividades que fizeram inúmeras
fortunas privadas e em que os riscos foram assumidos por profissionais
bem pagos e bem informados sobre os produtos que criavam e
negociavam.
Não há dúvida de que a assunção
pelo Estado de prejuízos do mercado financeiro internacional é uma
forma de imposto iníqua.
Os Estados Unidos
têm tentado temperar a sua política de contingência
permitindo que o mercado castigue os actores – como aconteceu
no caso da Lehman Brothers, desde que esses actores não
possam arrastar atrás de si, na derrocada, o próprio
mercado financeiro. Esta semana, as autoridades norte-americanas
recomendaram à União Europeia que adopte um plano
de salvação dos mercados financeiros, à semelhança
do seu plano Paulson, que deverá ser hoje votado pelo
Congresso norte-americano.
Entretanto, a comunidade
internacional vai buscando novos bodes expiatórios para
ajudar a justificar o injustificável: a falência.
Esta semana estiveram na berlinda as agências de rating.
Antes já tinham sido os reguladores. Agora, entre os
gritos por mais e melhor regulação, pede-se também
a regulação das empresas que fazem os ratings.
Outros culpados virão.
A resposta europeia
Há já várias semanas se nota a patente
falta de capacidade de reacção da Europa. Na
verdade, a União Europeia tem sido absolutamente incapaz
de reagir, como um bloco, ainda que apenas como um “mero” bloco
económico, à crise dos mercados financeiros que
alastra e não pára de aumentar desde o subprime.
Nesta matéria, a Europa tem seguido a táctica
da avestruz: enterra a cabeça na areia na esperança
de que a tempestade, que deixa de ver, passe sem a ver a ela.
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